Crime é o último lançamento aqui no Brasil do autor escocês Irvine Welsh (Transpotting). Eu li todos os livros dele que foram traduzidos e devo dizer que esse foge quase totalmente do estilo dos outros.
A experiência lhe ensinara que a única infelicidade pior do que ter um ente querido assassinado é ver esse ente querido desaparecer sem que seu destino jamais venha à luz. [pág. 21]
Ray Lennox é um policial da Escócia que esta de férias forçadas com a sua noiva Trudi em Miami – Flórida. Depois de um caso muito desgastante envolvendo a morte de uma garotinha, Lennox foi afastando do trabalho para esfriar a cabeça, Trudi aproveitou esse tempo para tentar se reaproximar do noivo, o tal caso também criou estranheza entre os dois, e planejar o casamento.
A trama em 3ª pessoa é contada por vários pontos de vista – Ray, Trudi, Tianna, ... – mostrando em alguns capítulos o presente e em outros o passado. Em uma ou outra cena não sabemos a princípio quem esta narrando, mas no decorrer da leitura tudo vai se encaixando. Alguns personagens não chegam a narrar, porém são partilhados alguns dos seus pensamentos.
Ray têm 35 anos, mas passa a impressão de ser bem mais velho, alguém que já viu muito e que esta cansado, derrotado. Britney, de 7 anos, desapareceu no caminho de casa até a escola. Uma busca policial foi iniciada no mesmo dia, Ray estava no caso, entrevistando todos que pudessem ter alguma informação e assistindo aos vídeos das câmeras de segurança das ruas onde a menina poderia ter passado. Obviamente nada deu certo afinal Britney morreu, ela foi seqüestrada por um pedófilo que a manteve por três dias antes de matá-la. Então começou a investigação para encontrar o culpado, apelidado de o Senhor Confeiteiro. O livro já começa com esse homem capturado e preso e Ray no avião a caminho dos Estados Unidos. O jovem policial participou ativamente dessa prisão, só que isso não foi suficiente para ele se libertar do caso devido ao profundo envolvimento emocional, os vídeos cruéis do Confeiteiro e outras imagens de Britney estão sempre em seus pesadelos. A depressão e a culpa por não ter salvado a criança estão acabando com ele, e a falta constante do álcool, dos antidepressivos e da cocaína para fugir de tudo isso não é fácil de agüentar. Aí é que o quase do 1º parágrafo entra, além das drogas e da narração que não poupa (e nem subestima) o leitor, o enredo e desenvolvimento de Crime é bem diferente de Transpotting, Pornô, As revelações picantes dos grandes chefs e SE VOCÊ GOSTOU DA ESCOLA VAI ADORAR TRABALHAR - claro que não é tão diferente que um fã questione a autoria.
Ao chegar na Florida, o casal se instala em um hotel, é obvio o precipício que existe entre os dois, ele incapaz de verbalizar a sua dor e seu ódio, ela tentando sem sucesso melhorar a situação. Felizmente não há dúvida do amor deles também, é triste ver tantos obstáculos atrapalhando suas vidas, às vezes parece impossível um futuro feliz. Os dias passam, eles encontram alguns amigos por lá, tentam encontrar alguma normalidade, mas uma noite em que saem para jantar ocorre uma discussão que desencadeia uma grande mudança na história. Trudi vai embora enfurecida e frustrada com a falta de ânimo do noivo. Lennox decide ir beber e acaba conhecendo duas mulheres, ele não tem interesse real nelas, porém acredita que pode conseguir drogas então entra no jogo, mais tarde já na casa de uma delas e com o objetivo alcançado acontece uma confusão, chegam dois homens mal intencionados, já conhecidos das mulheres (Robyn e Starry), a situação é estranha e piora quando um deles ataca a filha de 10 anos de Robyn. Ray tem uma reação forte (claro, por causa de Britney) e se tranca com a garota em uma das peças, ordena que os homens saiam da casa, mas quando eles saem de lá todos sumiram. No dia seguinte, a menina foi dormir e ele ficou no sofá da sala, Robyn liga avisando que esta muito encrencada e pede que Ray leve Tianna até a casa de um tio onde vai ficar segura. Assim Ray acaba comprando uma briga que não é dele e se envolvendo com gente perigosa, e para completar nos Estados Unidos ele é apenas um turista. A partir daí se desenrola uma trama complexa e surpreendente, apresentando aos poucos as peças do passado de Ray (e Tianna), incluindo o caso de Britney, com personagens muito bem desenvolvidos, sempre fazendo o leitor sair da zona de conforto com temas perturbadores abordados com originalidade, como a visão de Ray como escocês sobre os afro-americanos, ou os homofóbicos que consideram o homossexualismo uma perversão.
- Hum – murmura ele para si mesmo, tentando se lembrar do último filme decente em que Brad Pitt aparece. Decide que a refilmagem de Onze homens e um segredo não foi tão ruim assim. [pág. 35]
O rádio toca “Like Toy Soldiers”, de Eminem. O coro desencadeia uma onda tremenda de emoção em Lennox. [...] Aquele babaca é a p###a de um gênio [...] [pág. 175]
Crime é fundamental, pensa ele, para fornecer essa extravagância tão divertida? Onde estaríamos sem as fragilidades humanas? Hollywood estaria f####a. [pág. 208]
O cesto tem pescado. Lennox fica com pena da lagosta, funcionando inocentemente no seu próprio meio ambiente, só para ser sequestrada, cozida viva e devorada por alienígenas. [pág. 283]
Crime é uma leitura densa e difícil (o tema não a leitura em si), a pedofilia é um assunto delicado e incomodo que até pouco tempo não era mencionado em lugar algum. Até em uma conversa esses dias comentei isso sobre o filme A Hora do Pesadelo (o antigo), quando assisti na minha infância não percebi essa natureza do vilão Freddy Krueger, achava que ele só era um monstro criador de pesadelos, claro que por ser criança talvez não tenha processado esse tipo de maldade, igual era como se não existisse, ninguém falava disso. O vicio em drogas também tem bastante espaço na trama, acompanhamos a luta interna do personagem com mais esse problema. A linguagem é forte e crua, as cenas de sexo e violência não têm nenhum tipo censura, como eu disse, o autor não pouca ninguém. Ou seja, é um livro pesado, para um público mais maduro e que talvez não agrade qualquer leitor. Acho que vale muito a pena ler, mesmo tendo sido difícil, o autor é genial criando todo o lado psicológico do enredo e dos personagens - é impossível não se envolver. Ah, como não poderiam faltar, Welsh traz também momentos estranhos e muito significativos que marcam e fazem pensar, e ainda me surpreendi bastante com o enredo policial, não esperava nada do gênero e não sabia mesmo como ia terminar.
Título: Crime
Original: Crime
Autor: Irvine Welsh
Tradução: Paulo Reis e Sergio Moraes Rego
414 páginas
414 páginas
Editora Rocco
Nota:


















