Julieta Imortal de Stacey Jay lançado no Brasil pela Editora Novo Conceito apresenta uma versão bem diferente da maior história de amor de todos os tempos – Romeu & Julieta de William Shakespeare.
Julieta não cometeu suicídio para acompanhar o seu amado Romeu, ela foi assassinada por ele que ganharia em troca a imortalidade. E foi exatamente isso o que aconteceu, Romeu virou um Mercenário do Apocalipse, agora pode viver para sempre, mudando de corpo a cada encarnação e oferecendo a outros a mesma chance que recebeu, matar sua alma gêmea em troca da imortalidade. Acontece que Julieta conseguiu um acordo também, com o time oposto ao de Romeu (não poderia ser diferente), virou uma Embaixadora da Luz, diferente dele, ela só pode visitar a terra em alguma missão, e durante tais situações ela ocupa o corpo de alguém (temporariamente), o seu trabalho é unir as almas gêmeas que Romeu tenta separar, quando os casais se apaixonam completamente nem o amargo e maldoso Romeu consegue separa-los.
Esse é o enredo da inusitada versão do clássico feito pela autora, achei no mínimo criativo. A narração em 1ª pessoa de Julieta (e raramente em curtos capítulos por Romeu) ficou bem emocional ... intensa, mesmo 700 anos depois a garota ainda não superou a traição do amado, continua sendo uma adolescente com os sentimentos a flor da pele. Apesar da sua bela função na terra, ela é uma pessoa muito triste e negativa, o que é totalmente compreensível com essa subexistência, ela não morreu, mas não é ninguém. Ela ocupa o corpo de alguma pessoa, tenta encaminhar a vida desse ser da melhor maneira possível, além de encontrar as almas gêmeas e uni-las – e vai embora, sem nada, amigos, amor ..., ela é uma marionete, uma expectadora, é desolador. E para piorar tem que encontrar o ex em todas as suas missões, ele esta sempre lá tentando destruí-la mais uma vez.
Há escuridão lá dentro, aquela intrusa maldosa que chega quando eu ouso acreditar que um dia poderia ser inteira.
[Julieta Imortal – pág. 11]
Na missão que acompanhamos, Julieta entra no corpo de Ariel, uma jovem até parecida com ela, à garota é triste e com poucos amigos, até a mãe a desdenha. Ela acabou de descobrir que o namorado estava com ela apenas por causa de uma aposta. Julieta chega durante uma briga do casal no carro, eles sofrem um acidente e apesar de automaticamente odiar Dylan, sabe que não pode prejudicar ninguém por pior que seja. Isso logo deixa de ser um problema, pois Romeu toma o corpo de Dylan. Ela foge dele e consegue uma carona com Ben, um garoto lindo, inteligente e de boa natureza. Ariel e Dylan não são as almas gêmeas, então nem tudo esta perdido, porém têm muitas estranhezas nesse trabalho, ela nunca encontrou Romeu tão rápido em uma missão e nunca desenvolveu nem um tipo de sentimento por outra pessoa, por outro rapaz. Existem muitos mistérios para serem revelados, Julieta esta tão perdida quanto o leitor nessa história.
Os personagens ficaram interessantes e bem desenvolvidos, Ben é o cara tudo de bom – o que me incomoda, a garota é depressiva, estranha e sem autoestima e o cara é perfeito em todos os aspectos, até quando ele é mau... é bom, ele nem superficial é, afinal releva de cara as queimaduras de Ariel que repelem todas as outras pessoas, inclusive sua mãe, em um minuto ele enxerga toda a beleza interior e exterior da garota. Daí entra o Romeu, que é um baita sacana, sem coração, mas adivinha só, ele parece bem mais real, com segredos, medos e (muitos) defeitos – e esses extremos fizeram a diferença na história, ficou envolvente e aproximou o leitor. A trama é bem aberta para a reflexão e questionamento sobre as escolhas e o amor, por exemplo: analisando somente a personalidade, Romeu e Julieta continuam sendo mais compatíveis entre si do que com outros pares; e será mesmo melhor se arrastar por um mundo sem poder viver de verdade do que morrer?
Como fã da história de Shakespeare eu tive sentimentos conflitantes com esse livro, felizmente não me impediu de aproveitar a leitura. Julieta Imortal é um romance sobrenatural juvenil (YA-Jovem Adulto) na maior parte do tempo dramático mas com seus momentos de humor e normalidade, uma versão surpreendente de Romeu e Julieta.
Para Romeu, tudo pode se tornar uma arma: amor, confiança... moedas.
[Julieta Imortal – pág. 80]
... as pessoas violentas geralmente têm uma boa desculpa para os seus atos. Mas mesmo uma boa desculpa é apenas uma desculpa.
[Julieta Imortal – pág. 153]
CAPULETO — Ah, irmão Montéquio, dê-me sua mão. Este é o legado de minha filha, e nada mais tenho a oferecer.
MONTÉQUIO — Mas eu posso oferecer-lhe mais: mandarei construir uma estátua de Julieta em ouro maciço. Enquanto Verona for o nome de nossa cidade, nenhuma imagem terá tanto valor quanto a de Julieta, digna e fiel.
CAPULETO — Pois a estátua de Romeu, também em ouro, estará ao lado da de sua esposa. Infelizes vítimas de nossa inimizade!
PRÍNCIPE — Melancólica paz nos traz esta manhã. O sol, de luto, não se mostrará. Embora daqui, vão, e conversem mais sobre esses tristes fatos. Alguns serão perdoados, e outros, punidos, pois jamais houve história mais dolorosa que esta de Julieta e seu querido Romeu.
[Romeu e Julieta – cena final]
Título: Julieta Imortal
Original: Juliet Immortal
Autora: Stacey Jay
Tradução: Patrícia Dias Reis Frisene
240 páginas