Ratos é o primeiro romance do ilustrador e escritor britânico Gordon Reece.
“Quando um gato entra na toca dos ratos, ele não vai embora deixando-os ilesos. Eu sabia como aquela história iria terminas. Ele mantaria nós duas.”
Ratos, nesse livro (tá não só nele), são as pessoas que não se impõem, sofrem todo tipo de abuso caladas, não tem coragem ou sentem algum tipo de bloqueio quando confrontadas. A narradora Shelley, de 15 anos, e sua mãe, recentemente separada, são duas ratas assumidas.
“Fitando o céu, eu gostava de imaginar que vivia em uma época mais simples e inocente – de preferência antes de surgirem os seres humanos, quando a Terra era um vasto paraíso verde e quando a crueldade de ferir apenas por puro prazer era completamente desconhecida.” [p. 14]
A trama passa por idas e vindas no tempo, acompanhamos momentos de alguns anos atrás quando a vida da adolescente era tranquila, depois toda a turbulência do divórcio, a briga judicial, o bullying, até o presente quando mãe e filha vivem isoladas em uma casa no campo. A narração pelo ponto de vista de Shelley é muito envolvente, a garota é inteligente e estranha.
“Talvez, pensei, aquilo que não conseguimos compartilhar com os outros seja o que realmente define quem somos.” [p. 33]
Shelley é uma garota comum, esta um pouco acima do peso, é estudiosa e tem uma personalidade pacífica. Ela costumava ter uma rede de segurança na escola, as suas três melhores amigas – Emma, Jane e Teresa – o grupo formava as Jets. Mas tudo começou a sair dos trilhos no inicio da adolescência, quando suas amigas deixaram de se interessar pelas aulas e brincadeiras, para pensar em garotos e roupas, Shelley não mudou como elas e por isso se tornou uma pária, por consequência um alvo. Então começou a sofrer intimidações, ataques físicos e verbais, diariamente na escola, para piorar, suas principais agressoras eram as ex-amigas.
A narração é em 1ª pessoa, o que faz o leitor sentir quase na pele a situação horrível da jovem, é tão real e deprimente. O que me fez pensar nos comentários por aí, de pessoas que consideram o bullying uma piada, algo inventado, eles dizem que a nova geração é muito sensível, quando na verdade é algo muito sério que esta sendo mal interpretado, como se qualquer apelido e xingamento pudesse ser classificado assim. Bullying são ataques contínuos, humilhantes, intimidadores e maléficos, não é brincadeira de criança, e só menospreza quem nunca passou por isso.. Em Ratos fica bem claro como é.
Além dessa situação no colégio, em casa, a família passa por um divórcio rancoroso, com brigas judiciais, até ser decidido pela venda da “propriedade matrimonial” e a guarda de Shelley para a mãe. Os ataques na escola contra Shelley ficam cada dia mais violentos, até que ela vai parar no hospital. Ela e a mãe decidem mudar-se para o campo e a garota para evitar problemas resolve cursar o último ano em casa, com tutores particulares.
E a mãe? assim como a narradora, também questionei sobre a possibilidade da fraqueza da mãe influenciar no (mau) desenvolvimento da filha, mas foi apenas reflexão, acho que no fundo cada um pode encontrar a própria força, igual uma boa base familiar sempre ajuda. Elizabeth (ela tem nome sim) largou uma carreira promissora como advogada a pedido do marido para criar a filha. Ela sempre foi submissa a ele, e sofreu durante todo o casamento e agora com a separação. O pai cretino deixou as duas sem quase nada, então ela teve que voltar ao mercado de trabalho depois de anos, já sem tantas possibilidades de crescimento. No emprego novo, ela sofre com os colegas e chefe, eles abusam de sua natureza, ela acaba sempre recebendo trabalho extra, não ganhando crédito pelo o que faz e não recebe um salário compatível. Apesar de mãe e filha terem, como a garota diz: nascido com o gene de vítima, são alvos naturais, e serem muito amigas, elas têm personalidades distintas. Elizabeth é bem mais misteriosa, contida e séria.
Pode parecer que contei demais, porém apenas situei a história, como elas chegaram ao presente, à trama desenrola mesmo, depois que elas já estão instaladas no Chalé Madressilva e recebem na noite do 16º aniversário de Shelley a visita de um Gato, um bandido para perturbar a paz recém-encontrada pelas duas mulheres.
Todo mundo tem um limite, existe uma quantidade de desaforo, abuso, violência tolerável por cada pessoa, e sinceramente, duas mulheres com tanta bagagem nesse aspecto não são a melhor opção para um ataque, comparadas aos outros, elas têm que estar mais perto do basta e é isso mesmo ... uma trégua, algum alívio .... que aguardava desde o início da leitura.
Ratos trás um enredo tenso e bem desenvolvido, um suspense perturbador, a narração não poupa ninguém, a cenas de violência são fortes e bem gráficas. Os personagens são realistas e profundos, a história mexe bastante com o emocional, desperta questionamentos sobre limite, o certo e o errado, a justiça. Shelley é uma narradora excelente, cheia de defeitos, ela analisa tudo e muitas vezes se contradiz, principalmente em benefício próprio. Alias essa ambiguidade em torno dela faz a escolha da narração em 1ª pessoa nesse caso ainda melhor, deixa tudo mais interessante. Em alguns momentos torci por ela e em outros a achei aterrorizante, ela é de longe o melhor e o pior personagem do livro.
Eu tinha certas expectativas sobre esse livro e ele me surpreendeu muito - o estilo do autor, a linha que segue a trama e em como tudo é encarado, por isso dou 5 estrelas. Aviso, como "disse" previamente, o conteúdo é forte, brutal, portanto aconselhável para quem gosta desse tipo de leitura.
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Título: Ratos
Original: Mice
Autor: Gordon Reece
Tradução: Carolina Caires Coelho
Editora Intrínseca
240 páginas